Entrevista com o DJ Marcelo VOR

Author: Nathalia Birkholz
Date: May 20, 2006
Views: 5905

29/08/2005
Entrevista com Marcello V.O.R.

Ele foi viajar para Londres, morar com a namorada no bairro de Earls Court para estudar e acabou solteiro em Kentish town dividindo o teto com dois produtores musicais italianos que acabara de conhecer. Acabou fazendo parte do line up das mais conhecidas festas de psytrance londrinas e de quebra ainda se apresentou em diversos lugares Europa afora. O DJ e produtor Marcelo .V.O.R acabou de voltar de uma temporada de um ano e meio na cidade do “fog” e fala como é a cena de psytrance por lá, como acontecem as festas e ainda conta algumas novidades.

Psyte: Porque resolveu ir a Londres?
V.O.R: A princípio para estudar engenharia de áudio e também tentar trabalhar. Eu já tinha alguns contatos por lá, mas quando fui não tinha nenhuma festa marcada para tocar.


Psyte: Qual foi sua primeira impressão da cidade?
V.O.R: Muito brasileiro, muito polonês, muita gente de todos os lugares do mundo. Londres é totalmente cosmopolita, e a galera é bem amigável e muito doida.


Psyte: Como você começou a tocar?
V.O.R: Tinha uma galera que eu conhecia, que já tinha tocado na Freakadelic, como o Marchelo da festa de psy Fairy Tales, o Shane Gobi da Alkimi Records que também é de psy me deu uma força. O Shane ia tocar numa squat party e o chamou para um back to back, cheguei no squat e ele não estava, mas encontrei o DJ Vlado, dono da gravadora Pukka Music, editor da revista inglesa de trance Shangri-la-la, com quem eu falava no MSN e que me ajudou a agendar apresentações.


Psyte: Como foi a primeira apresentação em Londres?
V.O.R: A primeira vez foi em uma festa open air em um lugar tipo um parque, sem vizinhos em meios a umas garagens de trem. O lugar era como uma florestinha no norte de Londres aonde não se chega de carro, bem perto de um rio. Isso era meio inusitado, pois são raras as festas abertas no meio de Londres. Quem estava fazendo era o pessoal da Fairy Tales, que é um núcleo de festas de trance psicodélico que normalmente são indoor. Só foi meio ruim ter que ficar pegando ônibus e metrô com aquele case enorme, mas o dinheiro era curto.


Psyte: Porque são raras as festas abertas?
V.O.R: Rave aberta é proibido, mas acontecem meio que por baixo dos panos e normalmente afastadas. O pessoal que organiza faz de graça, e os DJs recebem um cachê simbólico ou às vezes não recebem. O legal é que eles fazem a festa pela vibe, cobram uma contribuição do tipo três pounds na entrada, mas quem não quiser não precisa pagar e não tem bar mas é permitido levar a própria bebida. Isso tudo porque a polícia pode chegar a qualquer momento e acabar com a festa, então não dá para ficar cobrando ingressos. Nesse tipo de festa aparecem cerca de 1000, 1500 pessoas. Em compensação, todo final de semana tem uma squat party de psy.


Psyte: E o que são essas squat parties?
V.O.R: Squat é um lugar abandonado que a galera invade para fazer festa. Lá em Londres tem até uma associação de squats com uma lista de casa abandonadas, lojas, fábricas, sobradinhos... A galera fica de olho em todos os lugares que parecem estar desocupados. Quem organiza manda uma mensagem via celular pra galera, eles têm um mailing pelo telefone. Acabam juntando até 1000 pessoas mas é tudo de última hora. A gente fica sabendo da festa no dia, horas antes dela começar, não tem nenhum tipo de divulgação para a polícia não saber. Mas sabemos que todos os finais de semana acontecem essas baladas.


Psyte: Mas porque essas festas semanais são proibidas se é permitido o apropriamento dos squats para as pessoas morarem?
V.O.R: Tem uma brecha na lei: se as pessoas invadem o lugar tanto pra fazer festa quanto pra morar e não usam a energia do lugar, a polícia não pode entrar. Se você entrar no lugar sem arrombar, se não destruir nada, trocar fechadura depois e tudo mais, enquanto ninguém reclamar o lugar é seu. A galera se apropria, e se o dono descobrir e não for usar o lugar ele não pode tirar as pessoas de lá, isso está na lei. Na verdade pode morar, mas quando rola festa sempre alguém reclama, é normal. Às vezes rola um acordo entre o dono e os ocupantes, outras vezes os donos ficam bravos. Se invadem um lugar para fazer uma festa e a polícia chega, o pessoal fala que é dono do lugar a polícia não pode fazer nada, só manda abaixar o som, etc.


Psyte: E você que freqüentava essas festas “proibidas” não teve nenhum problema com a polícia?
V.O.R: Tomei um enquadro sinistro uma vez. Eu estava tocando numa festa grande de psy chamada Chichime, e depois ia tocar na after party. Cheguei umas 8 da manhã do domingo, toquei e de repente lá pro meio dia eu só vejo a polícia dentro da festa, e eles falaram “relaxa, não iremos parar a festa”. Depois quando nós resolvemos sair do local, tinham três ônibus da polícia fechando o quarteirão. Tinham prendido a gente lá dentro e ficamos sem conseguir sair durante uma hora e meia. Então um grupo de policiais entrou e disseram: “vocês têm 15 minutos para limpar tudo e fazer uma fila indiana”. Eu não limpei nada e entrei na fila para a revista. Cada um foi revistado e interrogado pela polícia. Os caras me revistaram inteiro, tiraram todos os meus cartões da carteira e ainda deram uma zoada, rs. Olharam a minha mochila e encontraram um case e um fone. Eu não podia trabalhar lá como DJ, e disse que era material da escola e eles acreditaram. No final prenderam uma galera que estava ilegal e mais o dono da festa com o filho.


Psyte: Você não podia tocar lá?
V.O.R: Na verdade o trabalho do DJ é bem informal. Tem uma lei que permite aos imigrantes com visto de estudante trabalharem até 20h por semana em qualquer emprego, só não podem trabalhar com entretenimento. No entanto ninguém respeita essa lei. Não há uma fiscalização em tocas as festas e clubes, e os DJs gringos estão sempre por aí. Mas na verdade os gringos não podem tocar, eles precisam de uma autorização de trabalho como em um grande show, com toda uma burocracia. As raves são informais, como aqui no Brasil. O pessoal chega e toca, não é?


Psyte: E qual é a posição da polícia lá quanto às festas de música eletrônica? Eles pegam muito no pé como aqui?
V.O.R: Lá não tem essa coisa de Denarc, policial à paisana infiltrado nas festas, ninguém está ligando pro tipo de festa que está acontecendo. A polícia sabe que o pessoal só está se divertindo e que não são criminosos. Nos clubes e nas festas grandes e legais ninguém enche o saco. Eles só encanam quando a balada é em squat porque o local é invadido. Não é nada contra a música em si. Não é igual aqui que a polícia e a grande mídia parece que ficam contra a música eletrônica achando que só nessas festas rolam drogas. Lá, os caras são educados, conversam na boa.


Psyte: Nas festas de psy também tocam outros estilos de música eletrônica?
V.O.R: Às vezes rola uma festa de psy com techno ou electro. Na verdade tem galeras e galeras, tem gente que vai nas duas mas também tem umas mais radicais. O pessoal do techno não se dá muito bem com o do trance. Às vezes a gente tem que tomar cuidado porque rolam algumas tretas, e eu ouvi falar de pessoas que foram espancadas indo para alguma festa.


Psyte: Aonde mais você tocou por lá?
V.O.R: Toquei nos principais “picos”, que se chamam night venues. São uns espaços alugados destinados a eventos, como se fossem umas casas de shows. A maioria tem som, mas você pode levar equipamento também. Tem bar, segurança, mas não tem iluminação. São lugares com belos palcos, backstage, camarim...O The Coronet e o Stratfordrex que eu toquei são bastante conhecidos. Toquei em festas grandes como a Chichime, a Fairy Tales, a Antiworld, Symbiosis, todas indoor com cerca de 1000 ou 1500 pessoas.


Psyte: E não rolam as noites de psy em clubes, como aqui?
V.O.R: As baladas de psy rolam em clubes também, mas não rola nenhuma noite fixa de psy. Tem a Psychedelic Dream Temple que é uma loja de discos, roupas e tem um café em que acontece uma baladinha, mas não é toda semana, não é noite fixa. O lugar abre para festas de terceiros, o dono chama alguém pra fazer. Eu fiz duas freakadelic lá. Apesar de não existirem baladas específicas do gênero, todo final de semana rola alguma coisa de psy, ou em squat ou alguma festa. No verão tem umas no campo, mas na maioria do ano são todas indoor.


Psyte: E como foram as edições da Freakadelic?
V.O.R: Bem legal, a galera curtiu. Me chamaram pra fazer outra, mas eu não tava na pilha de ficar organizando balada, queria tocar.


Psyte: E como você compara a cena de psy de Londres com a do Brasil?
V.O.R: Em Londres, as revistas de música eletrônica como a DJ Mag e a Mix Mag estão saindo com muito release de psy, a mídia tá dando bastante atenção para a cena, eles acham que é a nova força. Ao contrário daqui, que a cena já estourou e estamos na fase em que a mídia critica as festas. O número de pessoas lá também é menor. No entanto, pelo tamanho da cidade eles têm uma cena forte.


Psyte: E como é o público?
V.O.R: O pessoal bota muita fé na música, na cultura psy, tanto que fazem as festas ilegais e não cobram nada. Aqui as festas são cheias, mas três quartos das pessoas não sabem o que estão ouvindo, não vão comprar o CD. Lá o povo leva a sério, compra camiseta da gravadora e tudo mais. Aqui rola mais um clima de azaração, lá o propósito é outro, o público é mais velho do que o daqui. Ninguém em Londres mora com os pais, o pessoal mora em squats, trabalha, estão sempre ralando. É uma outra realidade. Lá, principalmente em Londres, a maioria da galera que vai nas festas são viajantes, é cada um por si, não contam com o dinheiro da família como a maioria do pessoal que vai nas festas aqui. Por causa disso a galera é mais aberta lá, sempre alguém vai te ajudar, rolam muitas trocas entre as pessoas e o pessoal não tem muita grana.


Psyte: E a infra das festas?
V.O.R: As grandes festas que são legalizadas acontecem em lugares enormes com equipamentos muito bons. Eles têm uma grande preocupação com a qualidade da aparelhagem. Os caras chamam engenheiros de som para saber se a acústica vai ficar boa. O nome do engenheiro e a marca do soundsystem também saem no flyer e são tão relevantes quanto as outras informações. Se o som fica ruim, acabou a noite do organizador.
Também tem os telões gigantes comandados pelos VJs. Têm um mega esquema de luzes e raios lasers. Lá o grande evento é mesmo um show. Contratam o melhor decorador, acontecem várias performances de malabares. Já nos squats é mais nas coxas, rs.


Psyte: Alguma festa especial?
V.O.R: Teve a Psylidarity, uma festa beneficente. Lá toquei com o Gil Mahadeva e com o Dino Psaras. Foi uma squat party ilegal, no sul de Londres, num lugar que era uma concessionária de serviços. A festa era organizada por um brasileiro que conhece uma voluntária de uma instituição de ajuda aos índios excepcionais no Rio de Janeiro. A senhora recebe a ajuda dessa festa e cuida de ajudar essas crianças que são rejeitadas pelo resto da aldeia. Desta vez arrecadaram uns 6.000 pounds para a instituição do Rio.


Psyte: Além do Gil Mahadeva, havia outro brasileiro por lá com você?
V.O.R: Além do Gil só o Gabe que tocou comigo em uma festa incrível no bairro de Archway. Foi em um teatro enorme abandonado bem underground. Tocamos back 2 back nos fundos do teatro. Tinha a pista grande de psy e uma outra de electro.


Psyte: E qual foi o melhor DJ gringo que você escutou lá?
V.O.R: Um dos melhores foi o live do Joti Sidhu, da Inglaterra. Outro muito bom foi o Psysex de Israel.


Psyte: E lá você ainda rodou por vários países da Europa, certo?
V.O.R: Toquei na Europa toda, na Suécia, Áustria, Holanda, França, Bélgica, Itália, tudo nos finais de semana. Acabei como residente bimestral do Club Gibus, na única noite fixa de psicodélico de Paris. Ficava embaixo de um bar inspirado no Brasil chamado Favela Chic. O Gibus é o reduto de todo mundo que curte psy por lá. É mais pop, mas bomba.


Psyte: Pretende voltar logo para a Europa?
V.O.R: Volto em outubro, tenho três festas agendadas para tocar em Paris, e outras a confirmar. Agora que já conheci bastante gente pretendo ir marcando festas e ficar indo e voltando...


Crédito: Nathalia Birkholz
www.psyte.com.br

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