Dançar em transe

Author: Rob Bennet / Paolo Henrique
Date: Oct 10, 2007
Views: 4583

Portuguese translation of the popular trance dance article by Rob Bennett


Dançar em transe

By Rob Bennett
Translation by Paulo Henrique



Intro: Conheça a opinião de um senhor de quase 60 anos de idade, que utiliza a dança como forma de meditação e ensina como entrar em transe para atingir o êxtase.


Depois da minha oficina sobre a dança trance no início do “The Gathering of the Tribes”, em Frankfurt, Roberdo pediu que eu escrevesse um artigo para o Chaishop.com sobre a dança trance. Pensando nisso por um longo tempo, eu decidi tentar escrever sobre minha própria perspectiva. Trance é um assunto difícil de escrever, é algo muito controverso. Os estados de transe são não-racionais, então fica difícil ser racional para descrever. Entretanto, estes são alguns dos meus pensamentos sobre o estados de inconsciência.

Nós gastamos muito tempo de nossas vidas pensando, planejando, falando, lendo – sendo racionais. Mesmo quando tiramos um tempo para nós, a tendência é preenchê-lo com atividades racionais, que estão dentro da escala de freqüência beta. O cérebro é como se fosse um músculo complexo. Às vezes é preciso exercitá-lo, assim como também existem várias formas de descanso, pois o sono sozinho não é o bastante.

Durante o sono, nossas freqüências cerebrais flutuam entre o sono profundo (delta) e o sonhar (theta), com períodos de REM (movimentação rápida dos olhos). Isso é algo natural, um processo inconsciente vital para nossa sobrevivência. Estudos indicam que a qualidade do sono afeta seriamente a saúde. Quando estamos acordados, determinamos de maneira consciente nosso estado mental de acordo com o que estamos fazendo.

Na maior parte do tempo somos limitados, condicionados a uma sociedade competitiva, dentro da freqüência beta. Precisamos de uma pausa, um período sem concentração e racionalidade. Uma necessidade de experimentar estados de transe ou êxtase em nossas vidas, como um equilíbrio para todos estes pensamentos.

Existem diversas maneiras de induzir os estados de consciência trance, que mudam as freqüências predominantes beta, para o alfa relaxado, intuitivo, ou até mesmo freqüências theta, associadas ao sonhar e o transe profundo. A meditação, mantras, hipnose, exercícios de respiração e sexo tântrico, são algumas formas que os seres humanos desenvolveram com o passar do tempo, mas talvez o mais antigo deles seja a dança trance.

Em muitas sociedades primitivas, os rituais de dança eram de grande importância e foram extensivamente praticados. Tenho certeza que muitas destas tradições antigas se perderam, mas algumas ainda estão entre nós. Os Sun ou Bushmen, da África do Sul, continuam dançando regularmente em êxtase. Os Masai, no Kenya, o Bwiti de Gabon, o Gnawa do Marrocos e o Sangomas, da África do Sul, todos praticam a dança ritualística do trance. Entretanto, a pratica não é restrita a África. Os aborígines australianos, Sufis, os Druidas, os xamãs siberianos, os povos nativos da América do Norte e do Sul, todos praticam de alguma forma a dança ou transe induzido. Mesmo na Europa moderna, as tradições ainda sobrevivem. Entre elas estão a tarantela, na Itália, o flamenco espanhol, além das raízes Celtas.

Para mim, a busca do êxtase, de uma ruptura no tédio da sobrevivência cotidiana, tem conduzido muitas pessoas da nova geração desta sociedade moderna e industrial, de volta à dança trance. Certamente não é nenhuma coincidência que a droga mais associada a esta cultura seja o ecstasy. Vinte anos atrás, dificilmente ouvia-se alguém falando sobre as festas de house, mesmo no local onde começaram, em Chicago. Num curto espaço de tempo a cultura eletrônica se espalhou pelo mundo inteiro com as raves, as festas de techno e Goa. Utilizando a tecnologia moderna, a nova geração está recriando um espaço em suas vidas para o transe e o êxtase, com ou sem drogas.

Nesta idade de informação e comunicação virtualmente ilimitada, a experiência de nossos antepassados, possivelmente da idade da pedra, está nos incitando a dançar o trance. Não é somente na cultura da dança que nós encontramos uma renovação deste interesse no transe. Muitas pessoas já escreveram sobre ele, como Felicitas Goodman, Gabrielle Roth e Frank Natale. Existem muitos sites que falam sobre a dança repetitiva, principalmente nos EUA, com informações e eventos de todos os tipos.

Então o que é dançar em transe (trance)? Como podemos atingir o êxtase e o que isso traz de bom para mim? Estou descrevendo aqui apenas minhas experiências e observações pessoais.

Quando eu estou em estado de transe, eu não penso sobre como fazer qualquer coisa ou o que eu posso fazer. Eu sou a ação. Assim, se eu estiver dançando, eu sou a dança. É complicado expressar. Os pensamentos, os sentimentos e sensações vêm e vão; cintilam através de minha mente e corpo como luzes que me acompanham na dança. Meus limites dissolvem-se e eu perco meu senso próprio - uma gota d’agua que cai no oceano, passa a fazer parte de tudo. O “Eu” fica minúsculo, separado e derrete no infinito, compreendo o “Nós”. O tempo torna-se elástico. Este é às vezes estático, quando não meditativo e tranqüilo. Dançar é minha meditação, minha passagem para um estado alterado de consciência que eu necessito tanto quanto pensar e funcionar como indivíduo na sociedade.


Os tipos de experiências variam de leve a muito intensa. Eu posso entrar em transe leve observando minhas mãos, a maneira como elas trabalham individualmente. É um bom método de transformar um trabalho tedioso em algo divertido, mas para mim a dança trance é a mais legal de todas. É algo saudável e que rejuvenesce. Entrar regularmente em estado de transe através da dança reduz minhas tendência a irritabilidade e depressão.

Eu não sou jovem, nasci em 1949 e escrevo isso em 2007, estou quase nos sessenta. Nunca velho de mais para dançar. A nova geração do trance e suas festas merecem meu agradecimento. Fizeram o possível para que eu aprecie minha paixão por dançar o trance, uma proporção que era inimaginável antes da chegada da música eletrônica, pelo menos em Berlim, onde vivo. Não existem muitos xamãs que praticam rituais antigos do trance aqui, e é longe do Kalahari, onde os restos do San ainda vivem e dançam. Os concertos que fui nos anos 60, 70 e 80, não eram ideais para dançar em transe.

Aqui em Berlim eu posso dançar todos os finais de semana, esta música que eu aprendi a amar com pessoas que geralmente são mais novas do que meu filho mais velho. Essas pessoas sempre me dão boas vindas, apesar da minha cara de mais velho. Eles se divertem ao me ver dançando com minha filha de 22 anos. Infelizmente estou cada vez mais preocupado com estes belos jovens.

Parece-me que o consumo das drogas aumentou continuamente desde os anos 90, quando eu fui a minha primeira festa techno. As drogas sempre foram associadas a cena eletrônica. Aqui nós encontramos uma outra similaridade com rituais antigos, xamãs do trance, onde substâncias como a cannabis, o psilocybin, o peyote, a ayahuasca, a datura, a iboga e a amanita muscaria, são usadas regularmente para abrir as portas da percepção e induzir estados alterados de consciência. Os xamãs, entretanto, tratavam estas plantas com um enorme respeito. Atualmente, além de uma dosagem elevada, estão misturando todos os tipos de drogas, por exemplo: cocaína com álcool. Doses elevadas destas drogas antagônicas podem produzir um cocktail muito perigoso.

Praticando técnicas que são simples de aprender, é possível dançar em transe com pouca, ou nenhuma ajuda das drogas. Estas técnicas incluem abstrair o pensamento e a visão, movimentos ritmados. Junto com a sobrecarga sensorial da música apropriada, com volume elevado, as luzes e o ambiente de um clube eletrônico podem ser um cocktail poderoso e mais saudável para dançar o trance.

Quando muitos povos dançam junto o trance, experimentam a sensação de comunidade. Esta atividade compartilhada, que é uma celebração da vida, faz a ligação com nosso lado humano. A consciência passa a ser única, o que nos ajuda a se aproximar um dos outros. Aceitação não apenas com o próximo, mas também de nós mesmos.

A experiência de dançar o trance é lembrada como a volta pra casa, uma terra maravilhosa onde todos fazem parte - um infinito, a consciência coletiva.

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