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O Trance não é o novo rock and roll

Uma visão crítica sobre o BOOM do Trance

Author: Carbon23
Date: Feb 27, 2004
Views: 4841

TRANCE NÃO É O NOVO ROCK AND ROLL

Aqueles que olham de fora para a cena trance (trance, psytrance, full-on, progressivo, trance-que-parece-house, trance-que-parece-techno) poderiam dizer "Uau! Olha quanta gente, quantos artistas, selos, festas! Isso deve dar fama e rios de dinheiro!".

Estão enganados!

A verdade sobre a cena trance é que é tão pequena que quase ninguém a conhece - em outras palavras, se você procurar nas Páginas Amarelas você não vai encontrar o "telefone da cena trance". Se você parar alguém na rua (com exceção de alguns lugares de Israel, Londres, Goa ou Hamburgo) e perguntar quem é Infected Mushroom, Hallucinogen ou qualquer outro artista que você considere"Top", as chances que esta outra pessoa conheça este nome é altamente remota.

Esse são os fatos, amantes do Trance: seus heróis não são ninguém!

A música é desconhecida, não é tocada na TV, nos radios, e não é comentada em publicações internacionais especializadas! Quando um A&R (Artistas e Repertório) de uma grande gravadora recebe uma demo de qualquer projeto que é recordista de vendas da cena Trance (algo em torno de 10.000 cópias vendidas) provavelmente será jogado no lixo, porque nada que venda menos de 75.000 cópias sequer é cogitado.

Muito bem, quem disse que precisamos das "grandes"? 10 anos atrás isso era simples, porque havia apenas um distribuidor, 5 selos, 20 artistas e 10.000 pessoas procurando por esse tipo de música. Hoje temos cerca de 10 distribuidores internacionais para mais de 50 selos, mais de 500 artistas conhecidos….e menos de 10.000 pessoas que pretendem gastar algum dinheiro comprando essa música.

Em um ambiente que exige novas músicas todos os dias, não há como se esperar grandes vendas e sets inovadores, DJs criativos e com flexibilidade artística - não apenas "divulgadores de marca", tocando música fácil para agradar um público que na maioria das vezes precisa ainda de muito conteúdo musical. Em um ambiente que qualquer um que tenha um computador e alguns softwares pode fazer ou tocar música, não se pode esperar qualidade constante. Em um ambiente onde "malucos-beleza" e "garotada pilhada" fazem negócios, não se pode esperar ausência de "panelismos", cumprimento de datas e contabilidade adequada.

Em um ambiente onde todos querem fazer parte da "máquina" só se pode esperar que logo mais a cena Trance será engolida por si mesma, porque não será capaz de sustentar a si própria.

Claro que a solução não está apenas na retórica ou na crítica publicada na internet. É preciso ação por parte de organizadores e empreendedores cheios de boa intenção mas sem noção de contabilidade; por parte de novos e velhos artistas em deixar o estrelismo de lado e se preocupar mais com conteúdo do que com o rótulo; por parte do público que sabe fazer suas reinvidicações tão bem quando a cerveja custa mais que R$ 3,00 em uma festa mas que se comporta na maior parte do tempo seguindo modismos e futilidades.

Seria um disperdício de talento e de anos de trabalho ver o Trance sucumbir ao próprio deslumbre, como aconteceu várias vezes em movimentos muito mais fortes, quantitativa e qualitativamente falando. Algumas sugestões para essa mudança:

1. Os artistas deveriam gastar mais tempo na produção de cada faixa ao invés repetir um mesmo protótipo. Isso educa o público iniciante, mostra novos caminhos aos veteranos e solidifica o estilo dentro de um parâmetro musical e não apenas de "bombação" burra. Os DJs deveriam pesquisar mais músicas, inovar sua idéia de discotecagem, ouvir outras coisas que não Trance (e trazer algumas delas para seus sets) e assumir - ou aprender - de uma vez por todas, que bons DJs não são aqueles que tocam o que a pista QUER e sim o que a pista PRECISA.

2. Sem prejuízo do incentivo a novos talentos (o que é sempre legal), organizadores deveriam observar os DJs que contratam, verificando o background artístico e o trabalho que já fizeram na cena. Decidir line up de festas em função de amizade ou mesmo de caches "econômicos" é devastador e transformaria as lindas festas trance em baladas 100% comerciais em pouco tempo - e provavelmente ninguém vai notar. Não confunda "viabilidade econômica" com marketing tipo "Show da Xuxa" - há um meio termo bem interessante e que vale a pena ser buscado com afinco.

3. Parte do público ou tem memória curta, ou se recusa a aprender. Vi algumas ações em foruns na internet para divulgar nomes de organizadores das festas ou festas que pisaram na bola, isso é ótimo - mas ainda não é o suficiente! Não basta apenas ter memória, mas também ficar esperto com "super festas" com line ups "Top stars de Shan-gri-la", toboáguas, piscina de bolinhas e Mc Donald's - e normalmente basta um nome famoso (e gringo, claro) no line up pra galera sair correndo pra "ver o fulano" e depois choramingar de pista com lama, CDs riscados, mixagens ruins, "lives" sem nenhuma produção prévia, carros roubados, etc etc etc. A cultura Pop não combina com o Trance justamente pelas razões de números citados acima - então, que tal entender a coisa pelo lado mais prático e menos "glamouroso"? E, claro, ninguém vai morrer de fome se vez ou outra comprar os originais de algumas de suas músicas…

Por fim, desejo a todos um ótimo 2004 - e que todos que trabalham e gostam de boa música eletrônica possam ter algo do que se orgulhar ao final do ano!

* Bruno Camargo aka Carbon23 é DJ profissional, produtor por hobbie e advogado por necessidade em São Paulo. Acha que famoso mesmo é o Pelé, é devoto de Santa Ignorância e às vezes acorda com o pé esquerdo, mas não perde o groove.

Contato: carbon23@chaishop.com

** Agradecimentos: DJ Yaniv - Hadshot Haheizar Records

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